Nelson Sargento encerra projeto “Chulas na Feira” de dezembro. “Antes de morrer, é preciso conhecer Santo Amaro”.

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“O samba de roda nasceu na Bahia. E quem quiser conhecer sua história, antes de morrer, tem que passar por Santo Amaro”, disse a lenda viva do samba, o cantor, compositor, artista plástico, escritor e ator,  Nelson Sargento, ao brindar o público com sua presença, no seminário “Olhares do Patrimônio: valorização e preservação do patrimônio cultural imaterial através da oralidade”, realizado na Casa do Samba de Santo Amaro, dia 4 de dezembro. No encontro, que integrou a agenda do projeto cultural “Chulas na Feira”, estiveram presentes Roberto Mendes, d. Dora, professor Xavier Vatin, o chefe de gabinete do IPAC, Andre Reis, além de estudantes, representantes de entidades e comunidade santo-amarense.

Aos 93 anos, muito bem vividos, Nelson Sargento foi homenageado pelo Dia Nacional do Samba, onde fez show cantando seus vários sucessos, a exemplo do clássico “Agoniza mas não morre”. E foi durante o seminário que ele contou sua trajetória de vida no samba, tendo como mestres nomes como Cartola, Noel Rosa, entre outros lendários. O fundador da Estação Primeira de Mangueira, ao recordar tia Ciata, com a criação (em sua casa, onde os sambistas se reuniam) do primeiro samba gravado em disco “Pelo Telefone”, em 1917, foi logo dizendo: “Eu apurei e é mentira. Em 1912, uma cantora chamada Pepita Delgado gravou um samba”.

E entre um papo e outro, Sargento declarou, ou melhor, declamou: “Samba, agoniza mas não morre, alguém sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro. Negro, forte, destemido, foi duramente perseguido, na esquina, no botequim, no terreiro…. Inocente, pé-no-chão, a fidalguia do salão, te abraçou, te envolveu. Mudaram toda a sua estrutura, te impuseram outra cultura, e você não percebeu. Samba, agoniza mas não morre”.

Um pouco antes desta aula, o professor da Universidade Federal do Recôncavo, Xavier Vatin, apresentou ao público pesquisas na década de 40 feitas pelo linguista negro Lorenzo Dow Turner, realizadas em Salvador e no Recôncavo da Bahia, quando gravou, registrou e fotografou os mais eminentes sacerdotes e sacerdotisas dos candomblés da época. O trabalho resultou no projeto “Memórias Afro-Atlânticas: as gravações de Lorenzo Turner na Bahia (1940/1941)” que vem sendo distribuído nos terreiros de Candomblé e aguarda financiamento para a impressão da segunda edição. “Queremos ampliar o projeto e mostrar que o patrimônio sempre foi transmitido pela oralidade e tudo isso nasceu no Recôncavo. Pessoas do mundo inteiro vieram para a Bahia e aqui deixaram importantes registros. E é por isso que temos a obrigação de valorizar os verdadeiros detentores do saber. Eles estão fora da Academia e representam a alma do povo brasileiro”.

No caminho desta valorização, o chefe de gabinete do IPAC, Andre Reis, pontuou a importância de comemorar 50 anos do órgão de preservação do patrimônio, agregando a comunidade na construção de políticas públicas. “A luta do povo negro e a importância desse legado para o mundo precisa ser reforçada por cada um de nós. E Santo Amaro, com o nascimento do samba antes do samba – a chula, precisa preservar a sua identidade e imaterialidade. O IPAC sempre apoiará projetos que fortalecem estudos para viabilizar a disseminação das chulas do Recôncavo”.

A Casa do Samba também sediou dois dias de oficinas musicais, dentro de um outro projeto “Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”. As aulas foram ministradas por Roberto Mendes e os músicos que o acompanham (João Mendes, Leonardo Mendes, Gustavo Caribé e Tedy Santana). Com explanações didáticas e atividades práticas, os alunos puderam compartilhar o conhecimento através da oralidade, além de despertar o interesse pela valorização da sua cultura – as Chulas! Durante o encontro, os jovens conheceram a história da encruzilhada étnica na Bahia, o Batuque, a Ancestralidade, a Língua (redondilhas lusitanas), que são referências para o trabalho desenvolvido pelo grupo, oportunidade em que compartilharam suas experiências a partir de uma demonstração da linha evolutiva dessa manifestação cultural, a partir dos seus instrumentos, sem ferir a oralidade, preservando o sotaque.

Com a Praça da Purificação lotada, a apresentação do “Recôncavo Experimental” encerrou as atividades de dezembro, com os músicos Gustavo Caribé (contrabaixo), João Mendes (voz e guitarra), Tiago Nunes (bateria e percussão), Jaime Nascimento e Binho Aranha (percussão), Kiko Souza (sopros) e participação especial de Leo Mendes.

Para o idealizador do projeto, Roberto Mendes, a primeira etapa do “Chulas na Feira” superou todas as expectativas. “Pretendemos chamar a atenção da música de Santo Amaro para o mundo. E isso tem que acontecer na feira, onde a cidade se encontra. É lá que precisamos unir a culinária e o canto, que caminham juntos. As feiras das cidades são nosso grande ponto de cultura. Não há dúvida que na feira a oralidade caminha de braços dados com a razão. É o grande exemplo de comunhão entre os cidadãos. Vamos lutar para dar continuidade a esta história”.

“Chulas na Feira” é fruto de um termo de cooperação técnica assinado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC), vinculado a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA) e a Ong Roda Baiana. Tem apoios da Tv Bahia e Prefeitura de Santo Amaro.

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